Diario do Seu Joao

Um lugar pra divagar sobre qualquer coisa.

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Arquivo de: Novembro 2007

08.11.07

Tropa de Elite Parte III

          Essa talvez seja a segunda resposta mais complexa, podemos culpar o governo, que não aplica o dinheiro aonde deveria e troca as oportunidades das classes baixas por mansões, carros, iates para deleite próprio. Podemos culpar o próprio cidadão, que se conforma com isso e não busca seus direitos, não reclama, não tenta mudar nada.
          Podemos e até devemos, como lembrou bem o filme Tropa de Elite, culpar até as classes altas que se aproveitam de produtos da criminalidade, sejam drogas, mercadorias roubadas, armas, qualquer coisa que financie o crime, deixando ele forte e assim atraente como opção de vida.
          Ou seja, a culpa é de todos, porque a sociedade somo nós, ela é o que fazemos ou o que deixamos que seja feito. Não quero dizer que a culpa da criminalidade é da sociedade, que bandido é coitado empurrado pro crime por uma sociedade opressora, mas que temos sim uma parcela de culpa temos. Porque deixamos que exista condições para tornar o crime atraente.
          Qual seria então a culpa da criminalidade? Na minha humilde opinião, a união entre sociedade mal estruturada e indivíduos pré dispostos a cometer crimes.
          Como resolver esse problema? Inicialmente tratando de tirar a opção de ser criminoso para o individuo, dar outras opções para ele, condições de dignidade e condições de poder ter no mínimo o básico para viver. Porém isso é um processo lento e demorado, agora que já estamos no fundo do poço. Por isso esses mesmos indivíduos teriam que ajudar, recusando a entrar na criminalidade, renunciando ao caminho mais fácil sabendo que dias melhores virão, nem que seja para os seus filhos.
          Quando isso vai acontecer? Infelizmente nunca... Uma conclusão triste, mas chego a ela por um motivo simples. O que motiva um individuo a escolher o caminho do crime a uma vida de provações porém honesta, é o mesmo que motiva um político a ser corrupto e arrancar o dinheiro que deveria ser aplicado na população e colocar no bolso, também é a mesma coisa que motiva o cara da classe media a comprar produtos roubados e drogas ou um religioso acumular patrimônio milionário usando dinheiro de doações.
          Como disse o Capitão Nascimento, quem coopera com o crime é criminoso também, assim seja traficante, assaltante, playboy drogado, político corrupto, policial corrupto, religioso aproveitador, todos, todos são iguais. A cada um acha que ta levando vantagem, que está se dando bem, e não vai querer mudar por que acha que está por cima.
          As atitudes podem parecer diferentes, mas o que motiva cada uma delas é o mesmo sentimento, a mesma vontade de levar vantagem, de tirar proveito, de se sentir poderoso. Eu penso que a coisa toda só vai mudar quando o ser humano mudar.
          E o que é preciso fazer para mudar o ser humano e resolver o problema da ganância, e resolver o problema da violência que geram essa criminalidade toda? Essa, essa sim é a resposta mais complexa de todas, para essa eu nem penso em solução, está muito além da minha compreensão.
          Mas sei de uma coisa, se não acharmos logo essa resposta, pode ter certeza que não vai precisar de catástrofe natural para eliminar a raça humana da Terra, nós mesmos faremos esse trabalho.
  • criado por  PRA criado por PRA
  • Postado em 17:06:32

Tropa de Elite Parte II

          Como eu já disse, nem me atrevo a tentar dizer que sei o que é viver em uma favela, mas sempre acreditei que sempre existe opção, ninguém é obrigado a fazer nada. Dizer que não teve opção é uma forma de amenizar a responsabilidade pela escolha.
          Explico isso com outras duas historinhas. Uma senhora bateu na porta da minha avó pedindo dinheiro, minha avó já velinha e com problemas de locomoção, disse a senhora que se ela ajudasse a lavar o quintal, lhe pagaria um dia de serviço. Reposta da senhora “Estou pedindo dinheiro, não trabalho”.
          A rua aonde eu morava acumulava água em dia de chuva e as frestas do asfalto cresciam mato, bastante mato mesmo, um dia um cara tocou a campainha e disse que se pagasse R$ 5.00 ele cortaria pra mim. Em 20 minutos tava tudo capinado e o mato ensacado, paguei R$ 10,00 com gosto.
          Será que o menino que disse que não tinha outra opção para viver além de me ameaçar de morte e levar tudo que eu tinha, não poderia oferecer algum trabalho em troca de dinheiro? Lavar um carro, limpar uma casa, pintar um muro (ao invés de pixar), passear com um cachorro? Sei lá, qualquer coisa?
          Me atrevo agora a dizer que sim, poderia sim, se ele quisesse. Mas foi lhe oferecido outra opção e ele pesou as duas. Fazer trabalhos duros e ganhar pouco, ou apontar a arma para alguém e ganhar de uma só vez mais dinheiro que eu ganho em um ano.
          Ele escolheu a opção que achou melhor, não vou tentar entender porque ele fez essa escolha, essa talvez seja a terceira resposta mais complexa de todas. Assim como nunca entendi porque meu amigo roubava chicletes no supermercado, se ele tinha dinheiro para comprar, preferia levar de graça do que pagar. Eu acredito que tenha a ver com caráter mesmo, algumas pessoas diante dessas opções escolhem as mais difíceis, outras escolhem as mais fáceis.
          Isso faz parte do ser humano, por isso existem bandidos e corruptos em todas as classes sociais, seja A, B, C, D ou E, em todas as classes existem pessoas que roubam, que se drogam, que se matam. Mau caráter, a vontade de levar vantagem, existe em qualquer classe social, não é uma exclusividade de pobre ou favelado.
          Alguém poderia me dizer agora, tipo um puxão de orelha, “Mas veja bem, existe mais bandidos nas classes mais baixas do que nas mais altas”. E eu teria que concordar, isso é mesmo um fato.
          Mas então, eu teria que dizer, continuo afirmando que todo ser humano é igual, os menos favorecidos apenas são mais expostos a oportunidade do crime do que os melhores colocados na sociedade.
          Sendo mau caráter ou não, se a opção de assaltar não fosse apresentada ao menino que ficou 50 minutos dentro da minha casa com a arma na minha cabeça, talvez ele nunca virasse um assaltante. Mas ele vive num mundo aonde além de existir essa opção, ela é muito mais oferecida do que as outras. Assim, é mais fácil de aflorar o mau caráter nessas pessoas, do que nas pessoas que não precisam passar por uma escolha assim
          Percebe, não significa que ser favelado é sina para ser criminoso, mas que o ambiente é mais propicio para aflorar o que há de pior no ser humano. Muitos não resistem, muitos acabam se entregando.
          Então a culpa da criminalidade é exclusiva do ser humano, de nossa vontade natural de querer levar vantagem, de querer se impor aos outros? Isso até seria verdade se vivêssemos como animais, apenas pelo instinto de sobrevivência, pela lei do mais forte.
          Mas nós vivemos em sociedade, a como sociedade temos a obrigação de reconhecer essa limitação humana e trabalhar para evitar que isso aconteça. Do que eu estou falando? Exatamente de evitar que a pessoa tenha que escolher entre o crime ou a vida dura.
          É obrigação da sociedade fazer com que ninguém tenha a opção do crime como sendo algo atrativo, na verdade o ideal é que essa opção nem existisse. Mas então, por que ela existe?
  • criado por  PRA criado por PRA
  • Postado em 17:04:40

Tropa de Elite Parte I

          Eu sinceramente pensei muito antes colocar meu dedo nessa ferida, não sabia se valia a pena tocar em um assunto já tão massacrado e polemico. Mas depois de assistir Tropa de Elite, achei que precisava no mínimo desabafar, nem que seja pra ninguém ouvir (o que eu acho que acontece toda vez que publico aqui, já que ninguém comenta nada :-) ).
          Particularmente, sempre pensei e acreditei que ninguém nasce bandido, nunca acreditei que fosse algo genético, marcado para acontecer, mas que alguma coisa acontece no meio do caminho e a pessoa se torna um bandido.
          Duas historinhas rápidas, eu trabalho desde os 15 anos, acordava as 5:00 da manhã, pegava dois ônibus, saia do trabalho ia para a escola e voltava para casa as 23:30. Nunca parei de trabalhar desde então. Tudo que consegui foi batalhando, com esforço, bens materiais pagos em 10x(no mínimo) porque nunca tive salário suficiente para comprar nada a vista.
          Um dia fui assaltado, entraram em minha casa e em 50 minutos levaram tudo que eu tinha demorado 5 anos para pagar, na minha frente com uma arma apontada pra minha cabeça. E escuto do menino que devia ter uns 16 anos dizer “Olha Tio, o que a gente tem que fazer para sobreviver”.
          Minha mãe começou a trabalhar aos 12 anos de idade em casa de família, hoje viúva, já chegando perto dos 70 anos, ainda trabalha. Todo dia levanta as 5:00 e vai limpar e arrumar o bar, aonde fica atrás do balcão até as 18:00 no mínimo, quando meu irmão fica então sozinho. Isso de Domingo a Domingo, sem férias, sem feriado nem nada.
Assaltaram lá também, outro moleque apontou outra arma para a cabeça dela e gritou “Deita ai sua vagabunda”.
          Então, por experiência própria eu devo concluir que o cara vira bandido porque não tem outra opção, sendo obrigado a roubar para sobreviver. E acha que nós somos vagabundos, porque conseguimos com facilidade coisas que eles desejam e não podem ter. São fruto de uma sociedade que os leva a ser assim.
          Bem, não creio que a coisa seja assim tão simples, não creio mesmo. Não vou me meter a besta e tentar falar de como é a vida numa favela, porque felizmente eu nunca morei em uma, apesar de conhecer muitas pessoas que viveram ou vivem em favelas. Mas não é meu mundo, não sou hipócrita em dizer que conheço bem o que é viver lá.
          Posso no máximo dizer sobre o que vivi, nunca passei necessidade é verdade, sempre tive comida na mesa, roupa, escola (publica é verdade, mas sempre estudei), médico (publico também é claro). Isso graças aos meus pais, que sempre trabalharam das 5:00 as 22:00 no bar da família, meu pai trabalhou até morrer, nunca se queixou de trabalhar.
          Mas isso não significa que não passei privações, eu sempre tive vontade de ter algo que não poderia ter devido a minha condição financeira. Nunca fui pobre, mas também nunca fui rico. Seja um tênis de marca (eu usava bambas e kichutes), seja um Autorama ou Ferrorama (que confesso, até hoje tenho vontade de ter e não posso), sempre teve algo que desejei e não pude ter. Nem por isso, sai roubando de quem tinha.
          Mas mesmo entre as pessoas do mesmo convívio meu, que tinham as mesmas posses e possibilidades, a coisa já era diferente. Tinha um amigo, amigo mesmo, de freqüentar a casa um do outro, que não resistia ou desejo. Quando via na casa da gente algo que queria, pegava sem se preocupar. Esse cara caiu no mundo, fez muita besteira, de coisas pequenas acabou fazendo coisas enormes... felizmente agora está legal.
          Ta, eu sei que minhas privações não se comparam com passar fome, ou pior, ver um filho passando fome, passando necessidades básicas, sem medico, sem perspectiva. Minhas privações parecem mimos para quem tem falta do básico para sobreviver.
          Mas eram as mesmas que as do meu amigo e ele não resistiu. Será que ele diria para mim, se o pegasse roubando um dos meus carrinhos, “Olha tio, o que eu tenho que fazer para ter um carrinho desses.”?
          O que me faz pensar no menino apontando a arma para minha cabeça 6 anos atrás, será mesmo que ele tinha que fazer aquilo pra viver? Não tinha mesmo outra opção?
  • criado por  PRA criado por PRA
  • Postado em 17:01:54