Diario do Seu Joao

Um lugar pra divagar sobre qualquer coisa.

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08.11.07

Tropa de Elite Parte I

          Eu sinceramente pensei muito antes colocar meu dedo nessa ferida, não sabia se valia a pena tocar em um assunto já tão massacrado e polemico. Mas depois de assistir Tropa de Elite, achei que precisava no mínimo desabafar, nem que seja pra ninguém ouvir (o que eu acho que acontece toda vez que publico aqui, já que ninguém comenta nada :-) ).
          Particularmente, sempre pensei e acreditei que ninguém nasce bandido, nunca acreditei que fosse algo genético, marcado para acontecer, mas que alguma coisa acontece no meio do caminho e a pessoa se torna um bandido.
          Duas historinhas rápidas, eu trabalho desde os 15 anos, acordava as 5:00 da manhã, pegava dois ônibus, saia do trabalho ia para a escola e voltava para casa as 23:30. Nunca parei de trabalhar desde então. Tudo que consegui foi batalhando, com esforço, bens materiais pagos em 10x(no mínimo) porque nunca tive salário suficiente para comprar nada a vista.
          Um dia fui assaltado, entraram em minha casa e em 50 minutos levaram tudo que eu tinha demorado 5 anos para pagar, na minha frente com uma arma apontada pra minha cabeça. E escuto do menino que devia ter uns 16 anos dizer “Olha Tio, o que a gente tem que fazer para sobreviver”.
          Minha mãe começou a trabalhar aos 12 anos de idade em casa de família, hoje viúva, já chegando perto dos 70 anos, ainda trabalha. Todo dia levanta as 5:00 e vai limpar e arrumar o bar, aonde fica atrás do balcão até as 18:00 no mínimo, quando meu irmão fica então sozinho. Isso de Domingo a Domingo, sem férias, sem feriado nem nada.
Assaltaram lá também, outro moleque apontou outra arma para a cabeça dela e gritou “Deita ai sua vagabunda”.
          Então, por experiência própria eu devo concluir que o cara vira bandido porque não tem outra opção, sendo obrigado a roubar para sobreviver. E acha que nós somos vagabundos, porque conseguimos com facilidade coisas que eles desejam e não podem ter. São fruto de uma sociedade que os leva a ser assim.
          Bem, não creio que a coisa seja assim tão simples, não creio mesmo. Não vou me meter a besta e tentar falar de como é a vida numa favela, porque felizmente eu nunca morei em uma, apesar de conhecer muitas pessoas que viveram ou vivem em favelas. Mas não é meu mundo, não sou hipócrita em dizer que conheço bem o que é viver lá.
          Posso no máximo dizer sobre o que vivi, nunca passei necessidade é verdade, sempre tive comida na mesa, roupa, escola (publica é verdade, mas sempre estudei), médico (publico também é claro). Isso graças aos meus pais, que sempre trabalharam das 5:00 as 22:00 no bar da família, meu pai trabalhou até morrer, nunca se queixou de trabalhar.
          Mas isso não significa que não passei privações, eu sempre tive vontade de ter algo que não poderia ter devido a minha condição financeira. Nunca fui pobre, mas também nunca fui rico. Seja um tênis de marca (eu usava bambas e kichutes), seja um Autorama ou Ferrorama (que confesso, até hoje tenho vontade de ter e não posso), sempre teve algo que desejei e não pude ter. Nem por isso, sai roubando de quem tinha.
          Mas mesmo entre as pessoas do mesmo convívio meu, que tinham as mesmas posses e possibilidades, a coisa já era diferente. Tinha um amigo, amigo mesmo, de freqüentar a casa um do outro, que não resistia ou desejo. Quando via na casa da gente algo que queria, pegava sem se preocupar. Esse cara caiu no mundo, fez muita besteira, de coisas pequenas acabou fazendo coisas enormes... felizmente agora está legal.
          Ta, eu sei que minhas privações não se comparam com passar fome, ou pior, ver um filho passando fome, passando necessidades básicas, sem medico, sem perspectiva. Minhas privações parecem mimos para quem tem falta do básico para sobreviver.
          Mas eram as mesmas que as do meu amigo e ele não resistiu. Será que ele diria para mim, se o pegasse roubando um dos meus carrinhos, “Olha tio, o que eu tenho que fazer para ter um carrinho desses.”?
          O que me faz pensar no menino apontando a arma para minha cabeça 6 anos atrás, será mesmo que ele tinha que fazer aquilo pra viver? Não tinha mesmo outra opção?
  • criado por  PRA criado por PRA
  • Postado em 17:01:54
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