Eu costumo sempre dizer, que a humanidade não deixa de me surpreender, é certo que existe uma infinidade de culturas neste mundo, que apesar de sermos fisicamente quase idênticos, de representarmos uma mesma espécie; nossa diferença cultural, nossa diferença de pensamento, nossa forma de encarar a vida; é de uma diversidade que talvez não tenha igual na natureza.
E sinceramente não acho que isso seja ruim, a cultura particular de cada povo ajuda a compor o quadro belo que é nosso planeta, ser diferente é muito melhor e mais legal que ser igual, uma copia cinza uns de outros, essas diferenças ajudam a dar colorido, novidade, gosto e sabores a nossa espécie.
Mas tem que existir alguma coisa errada, quando essas mesmas diferenças passam a machucar e prejudicar, quando por causa de uma tradição, pessoas sofrem mesmo achando errado e não querendo, quando uma tradição passa a ser um fardo e não um diferencial cultural?
Vou abrir um parêntese aqui nas minhas divagações, para contar uma antiga e manjada historinha daquelas que são passadas há décadas, antes por carta, depois por e-mail e depois por animações, mas que acho deve se encaixar bem como exemplo do que pretendo dizer:
Um rapaz, recém casado, adorava comer peixe, tinha um gosto especial por cabeça de peixe(sei que é estranho, mas tem gente que gosta mesmo!). Um dia, voltando do trabalho, comprou um grande peixe, chegando em casa, pediu para a sua esposa que preparasse o peixe para o dia seguinte.
Quando chegou no outro dia, não via a hora de experimentar o tão esperado peixe, sentou-se a mesa do jantar já com água na boca, quando sua esposa tira a tampa da forma do peixe, ele abre a boca de decepção, estava feito ali o mais belo e saboroso peixe, mas sem cabeça e sem rabo.
- Amor, desculpa perguntar, mas aonde estão a cabeça e o rabo do peixe? – Ele esperava que estivessem em algum lugar que não estivesse ao alcance dos olhos.
- Oras, como assim? Eu tirei pra fazer o peixe, como deve ser feito, tirei e joguei fora.
- Como assim digo eu! Eu adoro comer cabeça de peixe, como se prepara um peixe sem cabeça, justo a melhor parte!
- Não senhor, peixe não pode ser assado com cabeça! Qualquer um sabe disso!
- Qualquer um que não seja alguém que eu conheço, pois eu sempre comi cabeça de peixe, quem te ensinou a fazer peixe sem cabeça?
- Pois saiba que em casa, sempre se preparou peixe assim!
Não conformado com essa explicação nosso jovem já convencido de que não comeria cabeça de peixe naquele dia, resolve ligar para sua sogra e perguntar de onde veio aquela idéia de assar peixe sem cabeça. Com todo cuidado, como deve ter um recém casado com sua sogra, ele chega ao assunto do peixe decapitado, e escuta de uma conciliadora sogra:
- Meu filho, essa duvida é porque você é muito novinho, ainda não entende, são coisas de culinária, coisas que se aprende com a vida, peixe assado não se pode fazer com cabeça e rabo, isso sempre foi assim, em casa sempre aprendemos assim, você vai entender com o tempo.
Decidido a não esperar o tempo para entender, resolve fazer uma visita a avó de sua amada degoladora de peixes, deixou para o final de semana, pois a velinha morava no interior, numa fazenda bem velha, afastada da cidade.
Chegando lá, já impaciente com a coisa toda, nem espera a Vovó abrir direito a porta, já vai logo dizendo pra que veio, e assim que a cumprimentou, desfilou toda a história do peixe sem cabeça e como a filha e a neta dela achavam um absurdo assar a cabeça que ele tanto gostava, queria muito saber porque peixe tinha que ser assado sem cabeça.
Assim que ele termina de contar tudo, repara que a avó está sorrindo abertamente, ele novamente desanimado, já esperando ela desfilar o mesmo sermão de sua sogra, de como ele era inexperiente na arte da cozinha, que não poderia saber como se prepara corretamente um peixe, mas para sua surpresa: